Honestino Guimarães

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IBIÚNA – O FILME

Enfim, foi feito, por um dos maiores documentaristas brasileiros, Silvio Tendler, um filme sobre o XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes. Que não aconteceu na cidade de Ibiúna - e nem assim tão perto, como diz quem teve de caminhar desde o local até às imediações da cidade. Sem falar dos aspectos cinematográficos, o filme traz depoimentos dos que participaram do congresso, na organização ou como delegados.

Naquele ano de 1968 o movimento estudantil estava em ascensão – em ascenso, como se dizia no jargão da época e do meio. Os estudantes estavam mobilizados, iam às ruas, enfrentavam a polícia, eram uma força organizada, tinham um peso na sociedade. Era preciso que sua organização máxima, a UNE, fizesse seu balanço, análise de conjuntura, elegesse a diretoria, aprovasse uma carta política e um plano de lutas.

A UNE era ilegal. Fazer parte dela, sustentá-la, organizá-la, participar de seu congresso era crime. Pelo art. 36 do decreto-lei de no 314 de 13 de março de 1967 – a lei de segurança nacional, participar do congresso era passível de pena de detenção de um a dois anos. Mesmo assim, em todas as universidades do país, centenas de estudantes disputaram as vagas de delegados. Não era uma viagem de férias, de diversão. Ninguém ia conhecer nada do local onde se realizaria o congresso – a maioria dos trajetos era feita de olhos fechados ou vendados. A atividade central seria discutir política e traçar os rumos para o movimento estudantil.

Mas não se fazia ideia das condições do local do congresso. Encontrar um lugar já tinha sido difícil, mais ainda construir um alojamento de alvenaria e um anfiteatro escavado na terra, aproveitando a inclinação do morro. Montar um esquema de segurança e providenciar a recepção e o traslado dos delegados das cidades de chegada (ABC, São José dos Campos, Campinas, Jundiaí) para o local do congresso já tinham sido tarefas gigantescas.

As comunicações eram mais difíceis naquela época e telefones e correspondência eram vigiados. Isso deve ter dificultado para a Comissão organizadora saber ao certo quantas pessoas viriam e tudo foi previsto para talvez a metade do número real de delegados (793, segundo o relatório do Dops. Havia também o pessoal das Comissões de segurança, infraestrutura, jornalistas). Assim, além das longas e cansativas viagens de ônibus de até três dias que os delegados tiveram de enfrentar, ao chegar ao local do congresso passaram fome e não tinham onde dormir.

A formação de um estoque de produtos industrializados, enlatados, leite em pó, vegetais e frutas que pudessem ser comidos crus, pratos e talheres descartáveis, locais alternativos para dormir, para o caso de haver gente além do previsto, enfim, planejar deixando folga, além de significar custos adicionais, não estava dentro da capacidade de organização daqueles jovens entusiasmados pela política mas providos de pouco senso prático. Mas no geral, ninguém se queixou da fome e do desconforto. E se os esquemas de saída pudessem ter sido acionados, todos teriam concordado em deixar que as lideranças e os que tinham prisão preventiva decretada fossem retirados, mesmo que isso significasse a prisão da maioria.

José Dirceu diz que se o Congresso tivesse sido aberto e realizado rapidamente poderia ter terminado antes da repressão chegar. Discordo dele. A repressão seguia os preparativos clandestinos e teria seguido a movimentação para um congresso aberto. Como aconteceu para a forma clandestina, teria esperado a abertura dos trabalhos para pegar todos reunidos, inclusive e principalmente, as lideranças. Provavelmente teria prendido mais gente direta ou indiretamente envolvida na organização – no sítio, ao menos, só estavam os participantes. A prisão em massa identificou um enorme número de lideranças intermediárias e militantes do movimento estudantil em todo o país.

Graças à iniciativa de José Roberto Arantes de Almeida, vice-presidente da UNE, foram realizados os “congressinhos”. Quando saíram do presídio Tiradentes (embora muitos tenham ficado presos) e voltaram às suas escolas, delegados e demais estudantes reuniram-se localmente, aprovaram documentos e elegeram Jean-Marc von der Weid presidente da UNE. Mais tarde Jean-Marc foi preso e Honestino assumiu a presidência interina. Em 1971 foi realizado, em condições duríssimas, um congresso no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, com cerca de 220 delegados e Honestino foi eleito presidente. Mas a UNE estava esfacelada, com as lideranças perseguidas, presas, fora do país ou assassinadas. Só em 1979 a UNE foi reconstruída.

Mas foi importante que os estudantes, uma força social de peso naquele momento, tenham tomado a iniciativa de realizar seu congresso em 1968. Hoje o XXX Congresso da UNE é um fato histórico relevante, que leva à reflexão e contribui para o balanço de um período de intensa mobilização popular na luta por transformação social, que de algum modo precisa ser retomada. O filme de Silvio Tendler é uma significativa contribuição a este processo.

Repetindo um velho bordão: A luta continua!

Feito com amor em memória de Honestino Guimarães.

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