Honestino Guimarães

Honestino Guimarães

Daniel Faria

“Triste o país que precisa de heróis” (Bertolt Brecht)

Honestino Guimarães é um dos símbolos recentes na história política brasileira. (…) Mas o passado de que Honestino faz parte não é o passado adormecido dos relógios e das enciclopédias; é um passado que sentimos em nossa carne, um passado que nos inquieta, um passado presente. Honestino caçado, Honestino desaparecido. Mas também Honestino solidário, lutador, idealista.

Por isso sua figura nos assombra, um líder estudantil cujas únicas armas eram as palavras, no discurso, nas pichações. Mais um líder assassinado. Por que ele não fugiu? Por que a ditadura foi tão cruel com um estudante comum?

(…) Honestino foi um exemplo de persistência, de amor ao Brasil e de amor à liberdade. A ditadura queria matar o exemplo, mas ainda hoje o nome de Honestino é símbolo de luta e resistência – não uma mensagem de morte e derrota, mas de vida e coragem. Não pensemos em Honestino como quem pensa em um mártir ou herói. Pensemos em um estudante apaixonado, movido por causas que ainda nos comovem: justiça social, paz e liberdade. Honestino, vivo por seu exemplo de amor à vida, é a prova de que estas palavras não são vazias. Se hoje a moda é a descrença, o imediatismo, (…) a vida grita mais alto, a utopia grita mais alto. Por isso Honestino assombra, inquieta – e convida.

Honestino é presente, não apenas porque seu nome está escrito em paredes e papéis, mas porque sua luta nos convida à luta, porque seu sonho nos convida ao sonho. Honestino não é um herói – só os tiranos precisam de heróis. Honestino, jovem brasileiro e nada mais. Viveu, sonhou, lutou, sonhos e lutas ainda vivos. Honestino plantando ventanias: ânsia de tempestades.
MAIS QUE UM SONHO
Urú
Em Itaberaí a festa da padroeira Nossa Senhora da Abadia é na segunda semana de agosto. Dito Monteiro herdou do pai Buzico o cinema pequeno na Rua do Vai e Vem. Tinha esse nome porque era aonde, no sábado, todo mundo ia. Todo mundo eram os jovens no footing. Era um quarteirão da Rua Senhor dos Passos. Depois Rui Mendonça ia fazer o cinema grande na Praça. Tinha a praça da igreja velha, pequena e graciosa. Quando falamos A Praça, é um retângulo de quatro ou cinco quarteirões vazios onde lá cima fizeram a igreja nova.

Ao lado dela ficava o colégio das freiras “alemãs” comandadas pela Irmã Seraphica, muito brava. Elas chegaram décadas antes da escola pública. Dali saíram muitas “normalistas lindas”.

Lá embaixo da Praça ficava a rua do cinema de Dito. Os meninos, Gui (depois conhecido como Honestino), Luiz e Norton trabalhavam com suas calças curtas na bilheteria, de baleiro e porteiro. Um time de 8, 9 a 12 anos. Luiz era homenagem a Prestes, um dos milhares de Luiz Carlos homenageando o dirigente da Coluna e do PCB. Contavam-se histórias da Coluna que andou por perto dali. Falava-se dos que se esconderam debaixo das camas e dos que viraram comunistas.

Gui, pequenininho, instigado por Monteiro, dizia: “eu vou estudar na União Soviética”. Duas décadas depois, quando desapareceram com ele, se ouvia: “do jeito que ele foi criado, ia virar comunista”, falado assim com consternação, mas quase como um atestado da culpa do pai.

Na festa não chove. O inverno, que é a época das chuvas, vai de outubro a março. Ninguém entendia verão em fim de ano. No Rio de Janeiro das revistas Cruzeiro ou Manchete, verão era lá pra dezembro. No cerrado são duas estações. Nas águas é inverno.Tempo seco, Monteiro punha uma tela enorme na rua, na esquina mesmo da Praça com a Senhor dos Passos e passava filme. Os roceiros e toda a cidade comentavam sobre “a fita” que viam.

Como não lembrar ao ler:
” Eu não vou conhecer todos os lugares que desejo, nem tudo e todos que quero.
Não posso viajar no tempo
Não consigo acabar com a saudade, Nem conseguirei
Eu vou morrer algum dia ”
….
O cinema é só um sonho.

(De Cinema Paradiso)

Biografia

Honestino Monteiro Guimarães nasceu em 28 de março de 1947 em Itaberaí, pequena cidade de Goiás. Sua infância foi igual à de muitos outros garotos do interior do Brasil, mas desde muito pequeno revelou uma inteligência incomum e paixão pelos estudos e pela leitura. Entre brincadeiras, livros e castigos das professoras, o menino levado e estudioso crescia sob o olhar atento de seus pais. Convivia com muitas primas e primos, fazia piqueniques à beira do rio das Pedras, nadava e jogava futebol com garotos de sua idade.
 
Em 1960 a família mudou-se para Brasília, atraída pelas oportunidades que a nova capital oferecia. Moraram na W3 Sul e depois na superquadra 405/406 Norte. Honestino, adolescente, era fanático por leitura e namorador. Terminou o curso ginasial e começou o científico no Centro de Ensino Médio (Elefante Branco). Em 1964 transferiu-se para o Centro Integrado de Ensino Médio (Ciem), experiência pedagógica inovadora em Brasília.
 
Já participava da política estudantil e ingressou na Ação Popular (AP), organização política clandestina de grande penetração no meio estudantil. Em 1965, antes de completar 18 anos, foi o primeiro colocado no vestibular, em toda a Universidade de Brasília. Na política estudantil, sua liderança logo se revelou. Era muito querido e respeitado pelos estudantes da UnB.
 
Mas ações como pichar muros, participar de manifestações e distribuir panfletos contra o governo resultaram em prisões – a primeira em fevereiro de 1966, durante uma greve; em fevereiro de 1967 fazendo pichações; em abril de 1967, durante manifestação na Biblioteca Central da UnB. Em agosto de 1967, na prisão pela quarta vez, foi eleito presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (Feub). Por sua atuação no movimento estudantil, Honestino passou a ser perseguido pelos órgãos de repressão política.
 
Seu pai representou-o por procuração no casamento com Isaura Botelho, militante estudantil. Em 29 agosto de 1968, vinte dias depois do casamento, a UnB foi invadida para que se cumprisse um mandado de prisão contra ele e outras lideranças estudantis.
 
Honestino foi preso. Em setembro, dois meses antes de concluir o curso de geólogo, foi excluído da universidade. Foi libertado em novembro. No dia 16 de dezembro de 1968, três dias depois da edição do AI-5, seu pai faleceu em um acidente de carro. Sem respeitar o luto e a dor da família, policiais ocuparam o cemitério com viaturas e ele não pôde ir ao funeral.
 
Com o AI-5, os habeas corpus não tinham mais valor e Honestino e Isaura passaram a viver como clandestinos em São Paulo, onde, em 1970, nasceu a filha Juliana. Em outubro de 1971 separaram-se e mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde no ano seguinte ele passou a viver com sua nova companheira. Foi eleito vice-presidente da UNE em 1969, na gestão de Jean-Marc von der Weid e em 1971 foi eleito presidente. Cumpria, na clandestinidade, suas tarefas na UNE e militava na Ação Popular Marxista-Leninista.
 
Acreditava que a transformação social brasileira só poderia ocorrer pela ação dos trabalhadores organizados e todo o seu esforço dentro da organização política tinha esse objetivo. Honestino nunca participou de ações armadas, para ele iniciativas dissociadas das massas trabalhadoras. Estudava economia e política incansavelmente. Mas seus escritos, acumulados em vários cadernos e entregues por sua companheira a um militante da Ação Popular, infelizmente perderam-se em uma enchente. Apesar da perseguição policial, mandava cartas para parentes e amigos, mantinha contato com a mãe e os irmãos e visitava a filhinha com frequência. Com os cabelos pintados de preto para disfarçar-se, ia à praia, ao cinema, ao futebol no Maracanã, ao desfile de Escolas de Samba no carnaval, tomava chope com amigos e até jogava peladas no Aterro do Flamengo.
 
Mas a repressão nunca descobriu seu endereço no Cosme Velho, onde morava com sua companheira. Há indícios de que a última prisão deveu-se à delação de um companheiro de partido, que apavorado diante das ameaças e da perspectiva de tortura, tornou-se informante da polícia. Os órgãos de repressão admitiram ter prendido Honestino, mas ele nunca foi visto por outros presos. Mesmo depois de longos anos de incansável busca, sua família não conseguiu saber o que aconteceu com ele, que passou a fazer parte da lista de desaparecidos da ditadura de 1964.

Feito com amor em memória de Honestino Guimarães.

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